Evelyn Marcélin Garcia de Oliveira
O filme
Avatar retrata sob o ponto de vista antropológico, não somente a forma como
povos nativos foram reprimidos, ameaçados e extinguidos física e culturalmente
pelos povos de cultura branca dominante, como também todos os outros choques
culturais que ocorrem quando dois povos de culturas diferentes entram em
contato, seja com consequências e/ou objetivos positivos, como no caso do
soldado Jake e dos cientistas, que buscavam aprender e ensinar de forma que as
culturas se compreendessem; ou sendo de forma negativa, como a empresa e os
soldados que acreditavam que a cultura e até os próprios nativos, eram
inferiores a eles, que apenas atrapalhavam o progresso e os lucros e deveriam
sair do caminho, fosse por bem ou fosse por mal, não se preocupando em
destruí-los e a todo o mundo social deles.
O mundo
contemporâneo capitalista tem o péssimo hábito de subjugar uma cultura de forma
fria, insensível e imprudente se esta encontrar-se no caminho de seus lucros,
entretanto, este hábito não é nada moderno e sim infinitamente antigo e
pertencente à humanidade. O ponto de vista financeiro cegou os homens, a ponto
de que eles esquecessem que coexistem com a natureza e as outras culturas, de
uma forma que deveria ser harmoniosa e não destrutiva, o etnocentrismo a meu
ver, é uma consequência da interiorização e individualização do próprio homem.
Deixou-se
de compreender algo que os nativos compreendiam, com a industrialização e as
regras sociais da civilização, perdeu-se a ligação com a natureza, a essência
primordial da própria vida humana, e por perder esse laço primitivo, desfez-se
também o respeito por ela. É como se o homem se achasse o “ser supremo” que
pode dominar e subordinar todos os outros que são considerados primitivos e
inferiores, e se esquecendo de que tudo em nosso planeta é estabelecido de
acordo com um equilíbrio, para os Na’vi este equilíbrio era mantido pela
divindade Eywa, e se este equilíbrio for quebrado, todos, inclusive o homem,
será afetado pelos seus efeitos, pois apesar de não termos uma “divindade”
identificada que nos salvará imediatamente, a natureza irá trabalhar para
reestabelecer seu equilíbrio como sempre faz, e uma pequena mudança na natureza
têm efeitos catastróficos na cadeia de seres vivos que dela dependem, como o
homem. Obviamente, essa característica do homem não é amplamente generalizável,
apesar de ser muito comum nos dias atuais.
O próprio
laço entre os indivíduos humanos pode ser considerado rompido de certa forma,
pois com a busca incessante pelo eu interiorizado, rompe-se o laço de ligações
entre os próprios humanos, o bem estar não é mais coletivo, como era para
alguns povos nativos e sim interiorizado e individualizado, o único bem é o que
recai sobre o individuo e, algumas vezes, sobre uma ligação bem limitada de
pessoas que os cercam. Ele não se vê mais simplesmente como uma “pessoa” e sim
como um “indivíduo”, sendo assim, os laços que os cercam são aqueles escolhidos
por ele, que lhe agradam e essa possibilidade de seleção torna o homem, muitas
vezes, avesso a aquilo que não agrada, já que ele tem a opção de não conviver
com isso. Desta forma, quando ele é obrigado a conviver com culturas que se
opõe, já existem inúmeras barreiras e mecanismos de defesa contra ela,
dificultando a abertura para novos relacionamentos culturais.
No texto
“Avatar e a Antropologia” que nos foi disponibilizado, o autor comenta que o
diretor do filme, manifestou uma visão preconceituosa quando colocou um branco
para organizar o contra ataque nativo, como se quisesse demonstrar que os nativos
não eram capazes de se organizarem sozinhos. Entretanto, em meu ponto de vista,
discordo dessa afirmação e acredito que o diretor teve uma visão integralista,
de que se unindo duas culturas diferentes, o homem tem a oportunidade de chegar
muito mais longe em sua conquista, de se tornar um ser mais sábio e forte, do
que se sobrepondo uma cultura a outra, pois o personagem Jake, para assumir o
controle da organização da batalha, inteirou-se dos métodos, da cultura e do
conhecimento Na’vi, trabalhando junto a eles e possuindo a grande vantagem de
ter pleno conhecimento da cultura e dos métodos dos brancos, o que o tornou um
adversário muito mais forte, pois pode passar esses conhecimentos para os
nativos de forma que eles também os compreendessem, ao contrario dos brancos
que não conheciam plenamente e sequer compreendiam os métodos de batalha dos
nativos.
Logo, o
filme Avatar é motivo para muitas discussões positivas se analisado com mais
profundidade, ele faz com que as pessoas raciocinem sobre o modo com agem na
sociedade, às vezes até de forma inconsciente, e mostra o outro lado, a outra
cultura, o lado que muitos sequer se dão ao trabalho de analisar e tentar
entender e o principal, aprender com ele, pois toda cultura, por mais
divergente que possa parecer da nossa, sempre tem algo a ensinar, uma visão de
mundo que tem um motivo para existir e por tanto deve ser respeitada.
Nenhum comentário:
Postar um comentário